“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.”
Paulo Freire (1987)
Antes de tudo, foi e está sendo preciso mudar a forma que vejo o imigrante e como percebo o meu
papel na sala de aula. Essa visão que nos é passada de que os imigrantes são pessoas carentes, vulneráveis, frágeis, nos colocando na posição de quem pode salvá-los, na verdade, faz sentirmo-nos em uma posição de superioridade em relação a eles. Por que eu acho isso? Vejo muitas pessoas pesquisando, debatendo, propondo leis sobre imigração, se disponibilizando a facilitar o aprendizado do idioma. É ótimo ver tanta gente envolvida com essa causa, tão menosprezada por nossos governantes, porém, não vejo imigrantes como protagonistas desses espaços: nos grupos de pesquisa, nas discussões no senado sobre a lei 6 815, nos debates sobre sua situação, na construção de materiais e planos de aula para sua aprendizagem. Como os não imigrantes podem contribuir para mudar uma realidade que desconhecem, não vivenciam? Ou como podem se sentir no direito de dizer ou propor quais são as formas de melhorar o processo migratório? Tem uma
música do Tom Zé que exemplifica bem o que tento dizer, chama-se Classe
Operária:
Sobe no palco o cantor engajado
Tom Zé
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e
cantar o que é bom para a classe operária.
Nenhum operário foi consultado
não
há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na plateia,
mas Tom Zé sabe o
que é bom para os operários.
Os operários que se calem,
que procurem seu
lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia
que virá
e na felicidade dos operários.
Não temos a solução para os problemas de ninguém, quando mais de um grupo inteiro, ela não existe pronta. Eu sei apenas de mim, da minha posição de maior conforto por saber a língua portuguesa, dominar as regras de convívio social, sentir-me integrada e não ter minha identidade cultural em conflito. Minha vivência como brasileira me proporcionou conhecer e entender nossos processos culturais, normas e procedimentos e saber onde procurar informações de coisas que desconheço. Há uma infinidade de assuntos que podem resultar a partir disso e serem trabalhados de inúmeras formas. Por onde iniciar? Quais assuntos são mais imediatos? De que forma trabalhá-los? Como saber o que mais angustia esses imigrantes? Mais impactam no seu dia-a-dia? Que significado estão dando para suas experiências no novo contexto? É PRECISO OUVI-LOS!


