Inicio explicando para o aluno porque sexta-feira passada não teve aula, era dia de Greve Geral, tudo estaria parado, ônibus, metro e trabalhadores (dentro de suas possibilidades). Perguntei se ele percebeu algo diferente naquele dia. Sim, ele me respondeu e me mostrou como isso afetou seu dia. Ele entrou no trabalho às 18 horas na quinta-feira. Saiu na sexta-feira de madrugada, exausto. O ônibus da empresa deixou-o na parada do Núcleo Bandeirante, pois ele não passa no Guará. Depois de horas esperando o ônibus e sem entender o que estava acontecendo, viu como única opção ir para a casa andando. E lá se foi... andou bastante, mas chegou em casa. Qual associação esses imigrantes e outros milhares de trabalhadores em mesma situação farão desse dia?
Português para imigrantes
quinta-feira, 18 de maio de 2017
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Dialogando com outras esferas
No Dia 04/05 aconteceu uma audiência pública para discutir os recursos financeiros da cultura para o guará , com a presença de artistas locais e do deputado Rodrigo Delmásso.
Há algum tempo percebi a necessidade de estar frequentando esses espaços governamentais, expor a seus representantes a numerosa presença de imigrantes em Brasília (para depois não dizerem que não sabiam de nada) e assim cobrar uma atitude em relação a essa situação. Claro que não sou a única a fazer isso, existem grupos da Universidade e da sociedade civil que também prestam esse papel e eu resolvi somar-me a esse trabalho. Porém, não tenho a intenção de propor soluções. A verdade é que eu não sou a melhor pessoa para fazer isso, não sou imigrante, gostaria que eles não tivessem que trabalhar tanto, tendo assim mais tempo para cuidar da própria vida. Então, o que posso fazer é comunicar que tem imigrantes vivendo aqui e é necessário pensar em formas de diálogo com essas pessoas, formas de encontrá-los e ouvi-los e a partir disso construir propostas e ações que garantam uma inserção democrática e digna.
Há algum tempo percebi a necessidade de estar frequentando esses espaços governamentais, expor a seus representantes a numerosa presença de imigrantes em Brasília (para depois não dizerem que não sabiam de nada) e assim cobrar uma atitude em relação a essa situação. Claro que não sou a única a fazer isso, existem grupos da Universidade e da sociedade civil que também prestam esse papel e eu resolvi somar-me a esse trabalho. Porém, não tenho a intenção de propor soluções. A verdade é que eu não sou a melhor pessoa para fazer isso, não sou imigrante, gostaria que eles não tivessem que trabalhar tanto, tendo assim mais tempo para cuidar da própria vida. Então, o que posso fazer é comunicar que tem imigrantes vivendo aqui e é necessário pensar em formas de diálogo com essas pessoas, formas de encontrá-los e ouvi-los e a partir disso construir propostas e ações que garantam uma inserção democrática e digna.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Ensinoaprendizagem (tudo junto e misturado)
Sobre nunca ser o que
ensinei na aula, sempre o que aprendi. Se ensinei algo, o aluno é quem
pode dizer. Por isso, conto o que aprendi na aula de hoje. Estávamos
trabalhando o verbo Ter no pretérito imperfeito, pedi a Paul que me
falasse do que tinha quando morava em Gana e que as respostas fossem as
mais variadas possíveis para verificar se tinha entendido os diversos
usos desse verbo. Uma das coisas que me respondeu foi que tinha amigos que
cantavam muito bem. Senti na fala dele uma ponta de saudade e pedi que
me contasse mais sobre seus amigos cantores. Paul me mostrou o vídeo que
aparece abaixo, foi gravado no centro cultural da cidade onde foi
criado, Kumasi, e apresentou-me os nomes dos cantores. Ele me explicou
que é uma dança tradicional de Ghana chamada Adowa, seus movimentos são
inspirados nos gestos feitos pelo animal que deu nome a essa dança.
Procurei na internet sobre e não encontrei nada a respeito em português. Agradeço a aula de hoje, a presença de
imigrantes no país com seus conhecimentos, suas culturas tão carregadas de histórias e
conexão com sua terra, passada com muita resistência e reverência a seus
ancestrais. É uma riqueza sem tamanho. Riqueza essa que só um país sem
preconceito é capaz de perceber e aproveitar.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Professor, pau pra toda obra
São muitos anos de ensino e aprendizado, mas a maior parte do tempo eu sinto como se tivesse desperdiçado 90 % dessa grande oportunidade que é trabalhar com essas pessoas falando demais e ouvindo de menos. Lembro que eu só pensava em como ajudá-los a melhorarem de situação, pesquisava sobre imigração, políticas públicas para esse público e tentava incluir temas que lhes informassem sobre seus direitos: falamos sobre direitos trabalhistas, direitos da mulher, sistema de saúde brasileiro, educação básica, formas de inserção no ensino superior, passe estudantil, etc. Os temas são em decorrência das necessidades apresentadas por eles, manifestam-se na sala de aula, seja por meio de uma pergunta que fazem, um caso que contam, uma reclamação sobre algum acontecimento ou até mesmo um pedido de ajuda. Não é em toda aula que acontece, porém, quando ocorre, é preciso dar a devida atenção, ter o entendimento de que nós, professores, estamos ali para auxiliar o aluno com as suas dificuldades na língua, e esta, engloba tudo, pois é toda uma nova vida que está se construindo com esse idioma. Afinal de contas, os símbolos, as grafias, os sons, as palavras não são apenas símbolos neutros e nem fazem sentido por si só, são representações do nosso mundo coletivo, das nossas interações cotidianas onde vivemos. Tudo é língua. Uma vez, estávamos falando sobre partes de uma casa: quais os nomes dos cômodos e o que se fazia em cada um, aí chegamos no quarto. Nesse momento, um aluno se animou e foi perguntando e se sentindo mais a vontade para perguntar, até que chegou ao ponto de o professor que estava ministrando a aula, explicar para o aluno o que era um 'boquete' e em que situação ele poderia pedir isso para uma mulher. Nunca tinha visto os alunos tão atentos à aula como nesse dia, ainda bem que era um professor homem e com mais anos de experiência, eu provavelmente teria censurado ou ignorado as perguntas dele. Esse acontecimento me trouxe um olhar mais humano para turma, como posso estranhar ou me surpreender com algo tão presente em nossas vidas, tão real e cotidiano como o sexo, assunto da maioria das conversas em rodas de amigos e de amigas. Bem, eu não inclui esse assunto no meu plano de aula, não chegou a tanto, mas acredito que se ele surgir na sala eu não vou me sobressaltar, entendendo-o como uma prática comum em muitas culturas e imprescindível para bastante gente, haja relevância. Onde mais ele poderia obter essa informação? Acredito que no Conselho Nacional de Imigração não vai ter quem responda, nem na polícia federal.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Como começar???!!???
“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.”
Paulo Freire (1987)
Antes de tudo, foi e está sendo preciso mudar a forma que vejo o imigrante e como percebo o meu
papel na sala de aula. Essa visão que nos é passada de que os imigrantes são pessoas carentes, vulneráveis, frágeis, nos colocando na posição de quem pode salvá-los, na verdade, faz sentirmo-nos em uma posição de superioridade em relação a eles. Por que eu acho isso? Vejo muitas pessoas pesquisando, debatendo, propondo leis sobre imigração, se disponibilizando a facilitar o aprendizado do idioma. É ótimo ver tanta gente envolvida com essa causa, tão menosprezada por nossos governantes, porém, não vejo imigrantes como protagonistas desses espaços: nos grupos de pesquisa, nas discussões no senado sobre a lei 6 815, nos debates sobre sua situação, na construção de materiais e planos de aula para sua aprendizagem. Como os não imigrantes podem contribuir para mudar uma realidade que desconhecem, não vivenciam? Ou como podem se sentir no direito de dizer ou propor quais são as formas de melhorar o processo migratório? Tem uma
música do Tom Zé que exemplifica bem o que tento dizer, chama-se Classe
Operária:
Sobe no palco o cantor engajado
Tom Zé
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e
cantar o que é bom para a classe operária.
Nenhum operário foi consultado
não
há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na plateia,
mas Tom Zé sabe o
que é bom para os operários.
Os operários que se calem,
que procurem seu
lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia
que virá
e na felicidade dos operários.
Não temos a solução para os problemas de ninguém, quando mais de um grupo inteiro, ela não existe pronta. Eu sei apenas de mim, da minha posição de maior conforto por saber a língua portuguesa, dominar as regras de convívio social, sentir-me integrada e não ter minha identidade cultural em conflito. Minha vivência como brasileira me proporcionou conhecer e entender nossos processos culturais, normas e procedimentos e saber onde procurar informações de coisas que desconheço. Há uma infinidade de assuntos que podem resultar a partir disso e serem trabalhados de inúmeras formas. Por onde iniciar? Quais assuntos são mais imediatos? De que forma trabalhá-los? Como saber o que mais angustia esses imigrantes? Mais impactam no seu dia-a-dia? Que significado estão dando para suas experiências no novo contexto? É PRECISO OUVI-LOS!
sábado, 8 de outubro de 2016
Encontro com o ensino de português para imigrantes: quando o meu curso ganhou sentido para mim.
Sabe quando alguém não tem dicção nenhuma, fala super baixo e não consegue contar uma história, por mais simples que ela seja, de forma coerente? Você acredita que uma pessoa assim possa tornar-se professora? Se você não acredita, saiba que é possível e eu sou uma grande prova disso (carinha de superação).
Estava cursando o sexto semestre do curso de Letras- PBSL, já tinha pegado todas os módulos livres, optativas e quase nada das matérias obrigatórias, quando descobri o trabalho com os imigrantes. Eu não tinha muita perspectiva com o meu curso, as áreas de trabalho que os professores apresentavam não me eram nada atrativas. No início, queria trabalhar com os povos indígenas, eu tinha uma visão muito romantizada a respeito, embora tivessem professores dessa área, eu não gostava da proposta e da forma como eram esses trabalhos: muito na perspectiva de estudá-los, falar sobre eles. Outra área constantemente incentivada era o trabalho com estrangeiros, nas escolas de línguas e embaixadas, da qual tinha menos interesse. Diante disso, procurei cursar outras matérias com o desejo de mudar de curso, fiz matérias e participei de projetos ligados à áreas mais interdisciplinares. Um deste foi o projeto Práticas multidisciplinares para o acompanhamento de estudantes indígenas na Universidade de Brasília, coordenado pelo professor Umberto Euzébio. Demorei para entender sua proposta e por isso contribui muito pouco, mas adorava participar das reuniões com os indígenas, as coisas foram fazendo sentido a cada fala, como se eu começasse a aprender a verdade, ouvi-la de quem realmente deve ser escutado. Esse foi o mesmo coordenador, que pouco mais de um ano depois, convidou-me para participar do projeto com os imigrantes, do qual faço parte até hoje. Lá eu me descobri professora entre outras descobertas que me aprofundarei ao longo das postagens. Foi encanto a primeira vista e tive a forte sensação que estava no curso certo, o que me estimulou a ficar das 8 às 21 horas na universidade todos os dias, até nas férias, para recuperar o tempo perdido e me formar logo.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Meus objetivos
Abro esse blog com a intenção de trocar experiências sobre o ensino de língua para imigrantes, especialmente os que vieram contra sua vontade e que mais precisam de auxílio nesse processo de inserção. Acredito que somente por meio da experiência e de muita escuta sensível em sala de aula, conseguiremos construir um modelo de ensino que seja de real interesse para este público, com métodos onde o conteúdo parta da vivência do aluno e o ajude na sua caminhada por esse novo destino.
Meu encontro com os imigrantes aconteceu no final de 2013, quando conheci uma turma de haitianos que estavam aprendendo português do Brasil no Varjão e em janeiro do ano seguinte tornou-se um projeto da Universidade de Brasília, do qual faço parte até hoje. Desde então, eles tem me proporcionado momentos de muita aprendizagem e felicidades. Concluí minha graduação no curso de Letras- Português do Brasil como Segunda Língua e trilho meu caminho pesquisando sobre educação, letramentos, identidade, integração aplicando-os na minha construção como professora de L2.
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