São muitos anos de ensino e aprendizado, mas a maior parte do tempo eu sinto como se tivesse desperdiçado 90 % dessa grande oportunidade que é trabalhar com essas pessoas falando demais e ouvindo de menos. Lembro que eu só pensava em como ajudá-los a melhorarem de situação, pesquisava sobre imigração, políticas públicas para esse público e tentava incluir temas que lhes informassem sobre seus direitos: falamos sobre direitos trabalhistas, direitos da mulher, sistema de saúde brasileiro, educação básica, formas de inserção no ensino superior, passe estudantil, etc. Os temas são em decorrência das necessidades apresentadas por eles, manifestam-se na sala de aula, seja por meio de uma pergunta que fazem, um caso que contam, uma reclamação sobre algum acontecimento ou até mesmo um pedido de ajuda. Não é em toda aula que acontece, porém, quando ocorre, é preciso dar a devida atenção, ter o entendimento de que nós, professores, estamos ali para auxiliar o aluno com as suas dificuldades na língua, e esta, engloba tudo, pois é toda uma nova vida que está se construindo com esse idioma. Afinal de contas, os símbolos, as grafias, os sons, as palavras não são apenas símbolos neutros e nem fazem sentido por si só, são representações do nosso mundo coletivo, das nossas interações cotidianas onde vivemos. Tudo é língua. Uma vez, estávamos falando sobre partes de uma casa: quais os nomes dos cômodos e o que se fazia em cada um, aí chegamos no quarto. Nesse momento, um aluno se animou e foi perguntando e se sentindo mais a vontade para perguntar, até que chegou ao ponto de o professor que estava ministrando a aula, explicar para o aluno o que era um 'boquete' e em que situação ele poderia pedir isso para uma mulher. Nunca tinha visto os alunos tão atentos à aula como nesse dia, ainda bem que era um professor homem e com mais anos de experiência, eu provavelmente teria censurado ou ignorado as perguntas dele. Esse acontecimento me trouxe um olhar mais humano para turma, como posso estranhar ou me surpreender com algo tão presente em nossas vidas, tão real e cotidiano como o sexo, assunto da maioria das conversas em rodas de amigos e de amigas. Bem, eu não inclui esse assunto no meu plano de aula, não chegou a tanto, mas acredito que se ele surgir na sala eu não vou me sobressaltar, entendendo-o como uma prática comum em muitas culturas e imprescindível para bastante gente, haja relevância. Onde mais ele poderia obter essa informação? Acredito que no Conselho Nacional de Imigração não vai ter quem responda, nem na polícia federal.

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